
Os dendês do Vale da Estrela: história e geografia no estudo de quilombos e paisagens no Recôncavo do Rio de Janeiro, século xix ❧
Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Brasil
https://doi.org/10.7440/histcrit100.2026.03
Recepção: 21 de fevereiro de 2025 / Aceitação: 21 de outubro de 2025/ Modificação: 5 de março de 2026
Resumo: Objetivo/Contexto: Este artigo investiga a formação de paisagens e as relações humano-ambientais. Está particularmente interessado na formação de quilombos (também denominados, em outras partes das Américas, “cimarrones”, “marrons”, “cumbes” e “bushinengue”) e paisagens no Vale da Estrela, localizado no setor oeste da Baía da Guanabara, no Recôncavo do Rio de Janeiro, explorando as interações entre aspectos geográficos, históricos, ecológicos, culturais e econômicos que moldaram essa área ao longo do século xix. Com um ambiente formado por morros, serras e manguezais, a região se tornou um refúgio estratégico para populações negras, especialmente durante epidemias na segunda metade do período analisado, permitindolhes criar comunidades mais protegidas das ameaças externas. O estudo também observa o surgimento de novos ecossistemas, como os de dendês, e investiga as estratégias de subsistência e as redes comerciais. Metodologia: A pesquisa adota uma abordagem multidisciplinar, a qual combina documentos históricos, mapas, toponímia, estudos de campo e análises de geoprocessamento, além de utilizar uma metodologia denominada “amplificação dos arquivos” para integrar dados de diferentes fontes, enriquecendo a análise e proporcionando uma visão mais abrangente sobre a formação e organização desses assentamentos. Originalidade: A pesquisa propõe uma nova interpretação dos quilombos, não apenas como lugares de resistência, mas também como estruturas que integraram dimensões territoriais, sociais e ecológicas. Conclusão: A análise evidencia como as características naturais do vale, como o relevo e a vegetação, favoreceram a instalação de populações diaspóricas, destacando a importância dos recursos ambientais para a resiliência das comunidades quilombolas. No entanto, a construção da ferrovia Barão de Mauá no século xix causou o assoreamento dos rios da região, modificando a paisagem e dificultando a preservação de uma memória ligada a esses grupos. A pesquisa também revela a intenção das comunidades humanas de moldar terras, paisagens e ambientes.
Palavras-chave: Brasil, dendês, ecologia histórica, ecossistema, geografia, quilombos, Vale da Estrela.
Las palmas de aceite del Vale da Estrela: historia y geografía en el estudio de palenques y paisajes en el Recôncavo do Rio de Janeiro, siglo xix
Resumen: Objetivo/contexto: el artículo investiga la formación del paisaje y las relaciones entre humanos y medio ambiente. Está especialmente interesado en la formación de quilombos (también llamados, en otras partes de América, “palenques”) y paisajes en el Vale da Estrela, situado en el sector occidental de la bahía de Guanabara, en el Recôncavo do Rio de Janeiro, y explora las interacciones entre aspectos geográficos, históricos, ecológicos, culturales y económicos que moldearon esta zona a lo largo del siglo xix. Con un entorno compuesto por colinas, montañas y manglares, la región se convirtió en un refugio estratégico para las poblaciones negras, especialmente durante epidemias en la segunda mitad del periodo analizado, y les permitió crear comunidades más protegidas frente a amenazas externas. El estudio también señala la aparición de nuevos ecosistemas, como la palma aceitera, e investiga estrategias de medios de vida y redes comerciales. Metodología: la investigación adopta un enfoque multidisciplinar, que combina documentos históricos, mapas, toponimia, estudios de campo y análisis de geoprocesamiento, además de emplear una metodología llamada amplificación archivística para integrar datos de diferentes fuentes, enriqueciendo el análisis y proporcionando una visión más completa de la formación y organización de estos asentamientos. Originalidad: la investigación propone una nueva interpretación de los quilombos, no solo como lugares de resistencia, sino también como estructuras que integran dimensiones territoriales, sociales y ecológicas. Conclusión: el análisis muestra cómo las características naturales del valle, como el relieve y la vegetación, favorecieron la instalación de poblaciones diaspóricas, destacando la importancia de los recursos ambientales para la resiliencia de las comunidades quilombolas. Sin embargo, la construcción del ferrocarril Barão de Mauá en el siglo xix provocó el sedimento de los ríos en la región, lo que modificó el paisaje y dificultó preservar un recuerdo vinculado a estos grupos. La investigación también revela la intención de las comunidades humanas de moldear tierras, paisajes y entornos.
Palabras clave: Brasil, ecología histórica, ecosistema, geografía, quilombos, palma aceitera, Vale da Estrela.
The Oil Palms of Vale da Estrela: History and Geography in the Study of Palenques and Landscapes in the Recôncavo do Rio de Janeiro, Nineteenth Century
Resumen: Objetivo/contexto: This article examines landscape formation and the relationships between humans and the environment. It specifically focuses on the creation of quilombos (also known as palenques in other parts of the Americas) and landscapes in the Vale da Estrela, located in the western part of Guanabara Bay in Recôncavo do Rio de Janeiro. It explores the interactions among geographical, historical, ecological, cultural, and economic factors that shaped this area throughout the nineteenth century. With an environment composed of hills, mountains, and mangroves, the region became a strategic refuge for Black populations, especially during epidemics in the latter half of the period analyzed, enabling them to establish communities more protected from external threats. The study also highlights the emergence of new ecosystems, such as oil palm plantations, and investigates livelihood strategies and trade networks. Metodología: The research uses a multidisciplinary approach, combining historical documents, maps, toponymy, field studies, and geoprocessing analysis, along with a method called archival amplification to integrate data from various sources, enriching the analysis and providing a more comprehensive view of how these settlements developed and were organized. Originalidad: The research offers a new interpretation of quilombos, viewing them not only as sites of resistance but also as structures that combine territorial, social, and ecological aspects. Conclusión: The analysis shows how the valley’s natural features, such as its topography and vegetation, supported the settlement of diasporic populations, underscoring the importance of environmental resources for the resilience of maroon communities. However, the construction of the Barão de Mauá railway in the nineteenth century caused river sedimentation in the area, altering the landscape and hindering the preservation of memories associated with these groups. The research also highlights these human communities’ intention to shape lands, landscapes, and environments.
Keywords: Brazil, historical ecology, ecosystem, geography, quilombos, oil palm, Vale da Estrela.
Introdução
“Nomear é salvar.”1
Claudio Magris
Os quilombos ultrapassam a ideia de simples refúgios de pessoas escravizadas fugitivas. Trata-se de uma forma complexa de organização social, política e territorial criada por africanos e seus descendentes no Brasil e em outras partes das Américas. Esses espaços constituíam ambientes de autonomia, reconstrução de modos de vida comunitários, baseados em laços de solidariedade e em práticas agrícolas, religiosas e econômicas próprias. Hoje, representam importantes referências históricas na luta pela terra e pela memória coletiva daqueles que resistiram aos colonizadores2.
Os estudos sobre quilombos nas Américas, frequentemente denominados “palenques”, “cimarrones” ou “cumbes” no Caribe e na América espanhola, evidenciam que essas formações sociais constituíram espaços de territorialização e construção de autonomia ante o sistema escravista, profundamente articulados às dinâmicas ambientais. No contexto colombiano, o cimarronaje garantiu a liberdade de grupos de africanos e seus descendentes e produziu marcas duradouras na paisagem, revelando formas específicas de uso e manejo dos recursos naturais em terras comunais3. Em perspectiva histórica, os palenques atuaram como núcleos de resistência ao escravismo, estabelecendo relações estratégicas com o ambiente que favoreceram sua manutenção e relativa autonomia diante do controle colonial4. Além disso, experiências como a de San Basilio de Palenque demonstram a permanência dessas formações como espaços de memória, identidade e continuidade de práticas territoriais vinculadas à natureza5. Em conjunto, esses estudos permitem compreender os quilombos nas Américas como territórios dinâmicos, nos quais liberdade, organização social e relações com a terra se entrelaçam historicamente.
Na história do Brasil, os quilombos expressam, de forma singular, as estratégias de resistência elaboradas por populações negras6. Entre essas estratégias, emergem hipóteses de análise que interpretam esses territórios como centros de organização social e de preservação cultural, resultantes de uma reconfiguração do território e do ambiente. Assim, este estudo propõe um novo olhar sobre a formação dos quilombos de uma área que aqui nomeamos “Vale da Estrela”, região localizada no setor oeste da Baía da Guanabara, Recôncavo do Rio de Janeiro. Ao explorar as interações entre aspectos geográficos, históricos, ecológicos e econômicos, a pesquisa busca compreender como esse território foi transformado de maneira simbiótica por essas comunidades.
Uma das hipóteses centrais deste trabalho é que a geografia do Vale da Estrela — caracterizada por morros, serras e manguezais — desempenhou um papel crucial na consolidação desses quilombos. Sua topografia acidentada e de difícil acesso, por conta dos mangues e das áreas alagadas7, tornou-se um refúgio estratégico para as comunidades negras que se formaram a partir de africanos livres e escravizados, negros libertos nascidos no Brasil e outros agentes marginalizados, muitos dos quais foram abandonados por seus senhores durante epidemias sazonais que assolaram a região no século xix. Esses indivíduos, longe do controle das autoridades e dos antigos proprietários, encontraram no vale um espaço para reconstruir suas vidas, criar formas de organização social e desenvolver práticas econômicas autônomas. Defendemos, portanto, que a formação desses quilombos representou não apenas uma resposta imediata à opressão do sistema escravista, mas também uma adaptação ao ambiente natural, que fornecia recursos essenciais à sua sobrevivência, formando, assim, um modelo de economia enraizada no tecido social8.
Outra hipótese que orienta esta pesquisa é que as intervenções com inserção de grandes infraestruturas, como a construção da ferrovia Barão de Mauá inaugurada 1854, tiveram impactos profundos e duradouros na bacia do rio Estrela9. Essas intervenções alteraram a paisagem, causando a obstrução dos rios e a degradação de ecossistemas, contribuindo para o apagamento de parte da história da região. Apesar das transformações ocorridas, o legado dessas comunidades permaneceu por meio de ecossistemas diaspóricos, como os de palmeiras de dendê, caracterizados pela vegetação resultante do cultivo feito por africanos e seus descendentes. Além disso, as ruínas de mais de 30 fazendas e portos, que foram em determinado momento reapropriados pelos quilombolas, atestaram a capacidade de adaptação e resiliência desses grupos diante das mudanças provocadas pelo progresso.
Para investigar essas hipóteses, o estudo adota uma abordagem multidisciplinar, a qual combina fontes históricas, estudos de campo e técnicas de geoprocessamento. Assim, utiliza-se da metodologia denominada “amplificação dos arquivos”, que permite integrar dados diversos — desde registros históricos até evidências ecológicas e arqueológicas. Essa abordagem é especialmente importante para compreender como as comunidades quilombolas interagiram com o ambiente, modificando-o e sendo impactadas por ele, deixando registros inclusive na toponímia. De acordo com Watkins, a integração dessas informações deve considerar a análise de diversos fatores que evidenciam a ocupação de certas regiões por grupos ligados à diáspora10. Dessa forma, as fontes escritas são fundamentais, mas precisam ser complementadas por um conjunto mais amplo de dados.
Além dos documentos históricos tradicionais, pesquisas arqueológicas, estudos toponímicos, levantamentos orais e análises ambientais são essenciais para construir uma compreensão mais completa das dinâmicas sociais e territoriais dos quilombos. Essas abordagens interdisciplinares permitem identificar vestígios materiais e simbólicos deixados ao longo do tempo, bem como captar os modos de vida, as práticas culturais e as estratégias de resistência desenvolvidas por essas comunidades em diferentes contextos ecológicos e históricos.
Um terceiro eixo da pesquisa é a análise da criação de ecossistemas diaspóricos, como os de dendês (Elaeis guineensis Jacq.), que desempenharam um papel fundamental nas estratégias de subsistência e nas redes comerciais quilombolas. Ao propor um novo olhar sobre os quilombos do Vale da Estrela, este estudo sustenta que tais ecossistemas refletem profunda interação entre seres humanos e ambiente. A análise demonstra que, apesar das transformações impostas pelo desenvolvimento, o legado dessas comunidades ainda pode ser identificado entre as matas e os morros do vale, como testemunho da capacidade humana de adaptação e resiliência.
Em 31 de maio de 1876, um comerciante publicou, no Jornal do Commercio11, um texto em que relatava problemas ocasionados por quilombolas no Recôncavo do Rio de Janeiro. Foi pedido às autoridades que tomassem providências contra diversos “aquilombados” que haviam estabelecido seus ranchos entre “Iguassú (rio) e o Porto da Estrela”, pois, mesmo tendo ocorrido várias diligências para destruir esses assentamentos “com uso de força em grande número”, o resultado fora negativo.
Ainda segundo o relato, esses “aquilombados tinham uma vida agitada”, pois trabalhavam muito em busca de alimentos, encontrando apoio somente naqueles que utilizavam dos seus serviços. Por conta disso, alguns negros que teriam fugido dos seus senhores acabavam por pedir para retornar, como ocorreu com um escravo do comendador Francisco José dos Reis, que, reunido com outros dois indivíduos, fugira da ilha de Paquetá em uma canoa12. Outros, no entanto, pareciam não se incomodar com as pressões dos agentes do Império, já que recebiam “barris de pólvora”, “barcos de mantimentos”, entre outros itens, tudo em troca de “artigos roubados” das fazendas da região e de “boa lenha” extraída dos mangues. Aos sábados e véspera de dias santos, faziam jongos13, “festejando talvez a liberdade e o poderio” que desfrutavam14. Para acabar com os quilombos, o autor solicita que autoridades não empreguem as “forças armadas” na destruição e desmobilização dos ranchos, pois a efetividade das diligências estava sujeita à participação de agentes locais que conheciam bem os possíveis esconderijos15.
Assim, no mês de julho do ano de 1876, o Delegado de Polícia do município da Estrela, Coronel Joaquim Alves Machado, auxiliado por Faustino Gonçalves Vieira, administrador da fazenda do Mosquito (ver mapa 3) — localizada na barra do rio Estrela — realizou a prisão de 23 escravos fugitivos que se encontravam em dois quilombos conhecidos como “Grande” (ou quilombo do Bomba) e Quilombo do Gabriel. Contudo, durante a operação, 10 dos escravos do Quilombo Grande conseguiram escapar em meio aos vastos pântanos da bacia do Rio Estrela. Em continuidade à operação para capturar os fugitivos e para “extinguir” os quilombos, o delegado, acompanhado pelo escrivão, praças e paisanos, partiu na noite de 7 de julho para a Freguesia do Pilar16, que, à época, pertencia ao município da Estrela. De lá, desceram o rio na manhã do dia seguinte para se posicionarem em um ponto próximo à entrada do quilombo. Além disso, enviaram uma equipe pelo rio Inhomirim para encontrar com o “preto Tiburcio”, que auxiliava as milícias locais na captura dos negros. Durante a diligência, foram capturados três escravos, enquanto seis conseguiram fugir17.
Em seguida, o delegado dirigiu-se às habitações dos quilombolas, denominadas “cubatas”18, levando consigo um dos capturados que servia como guia, já que ainda estava em busca dos outros fugitivos. Apesar da distância e das dificuldades no terreno, chegaram ao local. Encontraram oito ranchos mais ou menos regulares, cobertos com palha de coqueiro e paredes de “paus juntos”. Um dos ranchos servia como sepultura para o ex-chefe dos quilombolas “Joaquim Binga”. Além disso, havia uma pequena plantação de cana e um ponto destinado a um cemitério, onde existiam outras três sepulturas. Uma das catacumbas estava revirada, revelando a ossada de um dos cadáveres, o qual foi identificado pelos negros que acompanhavam os agentes como “Preto Aleixo”. Todas as habitações foram incendiadas. Na primeira diligência, foram apreendidas cinco armas de fogo, duas espadas, dois machados e duas foices. Na segunda, foram encontrados uma “canga”19, uma espingarda de caça, machados, foices, enxadas, redes de pescar, algumas ferramentas de carpinteiro e 61 talhas de lenha20.
Segundo as fontes, esses quilombos, que eram muito antigos, tinham certas garantias de fazer comércio por meio da navegação de cabotagem, pois eram situados em vastos mangues que “desaguavam no mar por um dos lados”, onde tinham a circulação e a comunicação com a cidade do Rio de Janeiro facilitadas. Em finais do xix, essa região era conhecida por ter muitas fazendas, porém com poucos moradores, o que facilitava a constituição de esconderijos por meio da reapropriação de espaços abandonados, formando pequenos ranchos para apoiar a atividade extrativista de madeira dos mangues e a mariscagem. Assim, os escravos fugitivos encontravam refúgio seguro nas vastas matas e áreas alagadas, devido à falta de pessoas dispostas a habitar a região por conta das condições insalubres desses pântanos21. Para se sustentarem, em troca de alimentos e aguardente fornecidos por aqueles que vinham da cidade, os quilombolas cortavam a madeira e carregavam os barcos22.
É importante ressaltar que notícias publicadas em periódicos como o Jornal do Commercio evidenciam o modo como a imprensa oitocentista frequentemente representava os quilombos sob uma ótica colonialista. Ao descrever os quilombolas como uma ameaça à ordem, o texto reforça uma narrativa de medo e deslegitimação dos modos de vida autônomos que se estruturavam nas margens fluviais do Recôncavo do Rio de Janeiro. Contudo, ler essas fontes a contrapelo23 permite compreender, nas entrelinhas, as estratégias de sobrevivência, territorialidade e resistência cultural que sustentavam essas comunidades negras diante da repressão e das tentativas sistemáticas de apagamento de sua presença histórica.
Assim, a história desses quilombos, apesar da literatura existente24, carece de outras perspectivas teórico-metodológicas a partir de um diálogo entre história e geografia, a fim de contemplar a constituição da espacialidade e de ecossistemas diaspóricos. A partir das fontes escritas, sabemos que a pesca, a mariscagem e a extração de madeira das áreas de mangue eram fatores fundamentais de consolidação dessa rede de comércio periférica e, como pretendemos demonstrar mais à frente, de inserção de plantas de outros continentes que garantiam aos quilombolas a produção de pequenas roças de subsistência. A detecção desse modo de vida integrado à paisagem, em conjunto com o mapeamento desses legados históricos, pode indicar a localização quase precisa de alguns desses quilombos na área do Recôncavo do Rio de Janeiro, sobretudo no setor oeste. Mas, antes, é preciso referenciar espacialmente nossa área de estudo e a economia que se formou no território, principalmente no recorte espacial que denominamos “Vale da Estrela”.
Foi apontado por Lamego25 que o Recôncavo do Rio de Janeiro constituía uma extensa área que abarcava todos os territórios ao fundo da Baía da Guanabara. Desde a foz do Rio Iguassú até o chamado “Pantanal Fluminense” (barra do Rio Macacú), formaram-se, ao longo do processo de invasão europeia, diversos núcleos populacionais com dezenas de fogos (unidades familiares) nas áreas de várzea, nos portos que serviam à cabotagem e nos caminhos de terra que se comunicavam com o Vale do Paraíba e Minas Gerais. Era, portanto, uma extensa rede de circularidade, que, desde os tempos da mineração, funcionou integrando estradas e rios com armazéns e fazendas de pouso26. Os rios eram os principais indutores desse processo de ocupação, pois sua navegabilidade, apesar de complexa em determinados períodos do ano, aumentava o intercâmbio entre os portos da área interna do recôncavo com portos centrais, localizados as margens da baía. Segundo Silveira27, em finais dos setecentos, pelas águas dos rios Meriti, Sarapuí, Iguassú, Magé, Pilar e Inhomirim, a produção de gêneros agrícolas chegava ao Rio de Janeiro, enquanto a cidade enviava negros escravizados, vinho, sal, biscoito e louças28.
A seguir, apresenta-se o mapa da região conhecida como “Recôncavo do Rio de Janeiro”, onde se localiza o Vale da Estrela. A área a que nos referimos se situa ao lado oeste da região. A delimitação espacial permite compreender a dinâmica econômica do território e a importância estratégica desses caminhos fluviais para o abastecimento do Rio de Janeiro naquela época. Localizado na porção oeste do recôncavo, o Vale da Estrela se insere nesse sistema, evidenciando sua relevância histórica na rede de circulação de bens e pessoas.
Mapa 1. Antiga localização do Recôncavo do Rio de Janeiro e do Vale da Estrela

Fonte: elaboração própria a partir de dados do qgis, software do Sistema de Informação Geográfica (sig), 2025.
Contudo, por volta de 1854, a área do porto e do Vale da Estrela vai paulatinamente perdendo importância para o escoamento da produção por conta da recém-instalada linha férrea. Isso porque o projeto da primeira ferrovia do Brasil, a Barão de Mauá, vai literalmente cortar o território ao meio, formando grandes alagados insalubres, impedindo assim o tráfico de embarcações entre os rios Caioaba, Inhomirim, Imbariê e Taquara, tributários maiores, ao lado do Saracuruna, do Rio Estrela29. Toda essa circularidade se dava a partir do núcleo político do município da Estrela, a freguesia Nossa Senhora da Piedade de Inhomirim, que, junto com as freguesias do Pilar, Guia de Pacobaíba e as serras da Taquara e Estrela, formavam, no passado, a grande Inhomirim: esse extenso território ia da barra do Rio Estrela até a região do Paraíba do Sul, no período colonial. Entretanto, existem outros dados e informações de fontes escritas a serem incorporados para que possamos ampliar a compreensão da economia, da espacialidade e do comércio antes de apresentar as redes quilombolas do vale30.
A partir do relatório do ano de 1856 do presidente de província, tivemos acesso a dados importantes de exportação de gêneros no recôncavo. Segundo o documento, o Porto Estrela tinha ao todo 15 faluas31, 20 barcos e “muitas canoas” empregadas no escoamento de mais de 400 mil arrobas de café, além de toucinho, algodão, entre outros gêneros. É importante lembrar que o Porto Estrela não ficava na barra do rio de mesmo nome, e sim na parte interna do recôncavo, como demonstra o mapa 2. Já o Porto de Mauá, esse sim localizado às margens da baía, recebia gêneros vindos das Minas Gerais e do Vale do Paraíba por intermédio da recém-inaugurada linha férrea. Isso porque a ferrovia deslocou os eixos de escoamento de produtos do Porto Estrela para o Porto de Mauá. No ano de 1856, saíram desse último porto 748 mil arrobas de café, além de fumo, batata, algodão e toucinho. No Porto de Magé (fora da área do vale), foram importados, no mesmo ano, 728.323 arrobas de café, 680 sacas de feijão, 19.832 sacos de farinha, 25.296 Jacazes de batata (medida que equivale a colheita em 1,5 hectares) e 10.101 volumes de outros gêneros. Nesse porto, havia oito lanchas, 32 barcos e “muitas faluas” além de diversas canoas “empregadas na pescaria”32.
Já o Porto de Iguassú foi descrito no relatório como o segundo mais importante de toda a província nesse período. Provavelmente ganhou tal protagonismo pelo fato de a região do Vale da Estrela estar na área mais assolada por ciclos sazonais de doenças ligadas à insalubridade no recôncavo, como veremos mais à frente. Os números das exportações de café que vinha das cidades de Vassouras, Valença e Paraíba do Sul a partir da rede comercial que se estabeleceu nas estradas Vernek, Polícia e Presidente Pereira, parece de fato ter superado todos os outros portos do recôncavo. Em 1856, foram exportados desse porto para a corte 2.194,168 arrobas de café, 221 sacas de feijão, 55 sacos de farinha 11.417 sacas de tapioca, entre outros gêneros. O mesmo documento aponta que o Porto de Iguassú estaria fadado ao mesmo fim a que o Porto Estrela por conta da ferrovia de Mauá, pois “tem muito a decair logo que funcione a estrada de ferro Pedro II”33.
A seguir, apresenta-se o mapa dos antigos portos do Recôncavo do Rio de Janeiro e da área do Vale da Estrela, evidenciando sua inserção nas rotas fluviais e comerciais que estruturaram a região. Contudo, é importante ressaltar que esses portos operavam de forma sazonal, em função do fluxo das marés, sendo também condicionados pelas exigências do comércio. Nem todos permaneciam ativos continuamente. Ainda hoje, há ruínas remanescentes de algumas dessas estruturas, tais como o Porto Estrela, o Porto do Opa, Mauá e Guia, o que evidencia o passado histórico e a importância dessas estruturas na dinâmica local.
Mapa 2. Portos de comércio do Recôncavo do Rio de Janeiro, dos séculos xviii ao xx

Fonte: elaboração própria a partir de dados do qgis, software do sig, 2025.
Assim, o provável colapso do sistema de rotas terrestres e fluviais de Iguassú, que ocorreria em finais do xix, estava atrelada a fatores similares que levaram o Porto Estrela a perder sua hegemonia no recôncavo: a obsolescência da “economia dos caminhos” em detrimento da capacidade mais efetiva de escoar a produção via ferrovias34. No caso da área do vale, isso foi ainda mais complexo por conta da insalubridade. Assim, defendemos que tanto as taxas de mortalidade quanto o processo de abandono das rotas fluviais e terrestres favoreceram a ocupação do território do Vale da Estrela por grupos quilombolas, posto que fatores econômicos eram deslocados para outros territórios, além da diminuição da fiscalidade e das forças de coerção do estado imperial nas áreas abandonadas. Isso pode ser apreendido na contabilização do número de “pedestres” (agentes especializados em fazer buscas nas matas) distribuídos nas vilas da província em 1855. Na Estrela, o número desses agentes empregados foi de apenas seis de força distribuída e dois de indivíduos efetivos, já Iguassú oito agentes foram empregados de forma distribuída e seis de forma efetiva35.
Em relação às doenças, na segunda metade do século xix, toda a província fluminense vai passar por significativos surtos sazonais de malária, febre amarela e cólera. Segundo Villela36, o Rio de Janeiro tinha uma população total de 151.576 indivíduos no ano de 1856. Em termos de porcentagem, foram 4.542 total de mortos no mesmo ano, o que representava 2,99% da população fluminense. No ano de 1856, morreram 948 pessoas livres37, 1.677 escravos e 1.917 sem identificação em relação ao seu status jurídico. Separados por vilas na área do recôncavo, Magé computou a morte de 65 livres e 110 escravos, enquanto Iguassú 22 livres e 144 escravos. Quanto ao município da Estrela, foram 76 pessoas livres e 38 escravos. Comparando com outras áreas fora do nosso recorte espacial, a baixa taxa de mortalidade nesse ano no vale chama atenção. Em Campos, morreram ao todo 1.192 indivíduos (não separados por status jurídico), enquanto Niterói computou a morte de 161 livres e 507 escravos38.
Contudo, o fato de o Vale da Estrela não figurar nas taxas mais altas de mortalidade, conforme relatório publicado no ano de 1856, não significa que a área não tenha sido a mais afetada pelas doenças na região do recôncavo em anos anteriores, pois: a epidemia que se desenvolveu primeiro na [...] Estrela e nas freguesias da Guia e do Pilar se espalhou por toda a freguesia de Inhomirim. Com mais intensidade, atacou o lugar denominado Fragoso, onde está localizado o estabelecimento nacional da fábrica de pólvora, e, a partir daí, seguiu para Petrópolis39.
Na Estrela e nas freguesias da Guia e do Pilar, a cólera surgiu no início de setembro de 1855. Para enfrentar a situação, foi nomeada uma comissão sanitária composta pelos doutores Bernardino Alves Machado — primo de Joaquim Alves Machado, o algoz dos quilombolas — e Guilherme Antunes Marcelo, além do subdelegado de polícia Francisco Ferreira de Andrade. Em 18 do mesmo mês, enviou para as duas últimas freguesias estudantes de Medicina Antônio José de Souza Rego e Olímpico Herculano Saraiva de Carvalho, além de Pedro de Almeida Godinho, que seguiu para a Freguesia do Pilar. Os médicos Bernardino Alves Machado e Guilherme Antunes Marcelo, membros da comissão sanitária, com o apoio do Dr. Jerônimo Severiano Barrão, dedicaram-se ao tratamento dos “enfermos pobres” da região. Até o dia 28 de setembro de 1855, a epidemia havia causado a morte de 14 escravos na Estrela, seis na Guia e oito no Pilar, além de quatro pessoas livres, totalizando 32 vítimas. No início de outubro, a cólera se espalhou pela fábrica de pólvora, o que levou o Sr. Ministro da Guerra a determinar a criação de uma enfermaria para tratar os empregados e escravos do estabelecimento, permitindo também a recepção de “doentes pobres” da vizinhança40.
É fundamental destacar que, enquanto grandes epidemias ceifavam vidas, o progresso se manifestava por meio das ferrovias, tornando gradualmente obsoletas as redes de portos e caminhos terrestres. Fadel41 apresenta um panorama do processo de inserção dessa nova infraestrutura no território do Recôncavo do Rio de Janeiro. Embora a autora se concentre na reconfiguração territorial ocasionada pela construção da estrada de ferro Pedro II, que atravessa a vila do Iguassú, ela também observa que a região do Porto Estrela começou a perder espaço econômico para o Porto de Mauá, resultando em um território marcado por numerosas habitações abandonadas. Essa transformação está diretamente relacionada às fontes previamente mencionadas sobre os quilombos, onde, na área da Estrela, muitas residências permaneciam vazias ou com poucos habitantes. A pesquisadora não relaciona o surgimento de doenças sazonais com a construção das ferrovias. Contudo, o engenheiro responsável pelas obras de saneamento que vão acontecer no vale entre final do xix e começo do século xx aponta que se formaram:
[...] extensas bacias pantanosas entre os aterros das estradas de ferro, cuja obra de arte nunca houve preocupação em dar livre escoamento às águas, estrangulando-se em vários pontos o curso dos rios, ou os desviando do leito natural para formarem de um lado e do outro dessas linhas um depósito permanente de águas estagnadas. Semelhante improvidência trouxe como consequência o desenvolvimento das pirexias palustres, seguindo-se a emigração progressiva da crescida população ali estabelecida desde os tempos coloniais42.
Sabemos que “águas estagnadas” são celeiros de diversas doenças em zonas tropicais, sobretudo as que têm relação com a proliferação de mosquitos, como malária e febre amarela43. Assim, pode-se levantar diversas hipóteses de que o Vale da Estrela, na segunda metade do século xix, foi uma região central na propagação de doenças epidêmicas como cólera, malária e febre amarela. Embora em 1856 a taxa de mortalidade não tenha sido das mais elevadas em comparação a outras áreas da província fluminense, as evidências sugerem que a região enfrentou, em tempo pretérito, surtos severos que impactaram profundamente sua população. A epidemia de cólera, por exemplo, teve início na Estrela, revelando a vulnerabilidade da localidade em face das condições de insalubridade44. O mapa a seguir apresenta a localização das antigas fazendas do Recôncavo do Rio de Janeiro que, da segunda metade do período analisado, foram abandonadas em razão das transformações econômicas e ambientais da região.
Mapa 3. Parte das antigas fazendas45 do Recôncavo do Rio de Janeiro

Fonte: elaboração própria a partir de dados do qgis, software do sig, 2025.
Portanto, a intersecção entre as epidemias e as transformações infraestruturais revela um quadro complexo de desdobramentos sociais e sanitários, em que o avanço tecnológico, ao invés de melhorar as condições econômicas do território, exacerbava os problemas de saúde, culminando na despovoação e deterioração dos núcleos populacionais da região, sobretudo das fazendas apresentadas no mapa 3. Os quilombos, assim, tornaram-se uma constante nesse período. Os quilombolas do vale, mesmo diante de surtos epidêmicos e pressões constantes das autoridades, conseguiram criar um modo de vida econômico enraizado.
Nesse contexto, é possível identificar o movimento pendular descrito por Polanyi46, no qual a economia de mercado e seu “moinho satânico” — metáfora usada para se referir à ascensão da economia capitalista industrial do século xix — conviveu com a vertente substantivista, fundamentada no costume e nas relações sociais constituídas a partir da natureza. Ambas podem ser observadas em um mesmo espaço, onde a economia quilombola, de caráter informal e enraizada no tecido social47, aliada ao ecossistema do mangue, formaram um obstáculo ao avanço da máquina colonialista. Assim, esse fenômeno de resistência vai além de um simples esforço pela sobrevivência, envolvendo também a criação de ecossistemas e paisagens, o que aponta para uma adaptação contínua das comunidades, assim como a ressignificação de práticas culturais que, ao longo do tempo, foram incorporando também elementos locais, sobretudo indígenas, como a pesca de curral48. Dessa maneira, a compreensão da resistência quilombola no Vale da Estrela exige que busquemos novos indícios que reforcem as hipóteses iniciais. São esses indícios que nos ajudarão a entender de forma mais profunda o papel dos quilombolas no processo de transformação das paisagens ao longo dos anos. Com isso, será possível perceber como as estratégias e as práticas desses grupos contribuíram para a construção de um espaço de sociabilidade negra, distinto das formas de organização que predominavam em sociedades oprimidas. Na próxima seção, pretendemos detalhar como a região se consolidou como um espaço de influência africana, explorando de que forma essa configuração pode ter ajudado na nomeação de alguns lugares e na formação de possíveis identidades locais, um processo que, ao mesmo tempo, dialoga com a memória histórica e com as transformações geográficas e sociais do período.
Os africanos que construíram sua sociabilidade entre mangues, estepes e morros do Vale da Estrela e que, com certo grau de certeza, contribuíram para a formação de núcleos quilombolas têm sido pouco abordados na historiografia. Segundo Moreira49, em 1849, havia 96 africanos livres empregados na já citada fábrica de pólvora, entre homens e mulheres50. No relatório de 185751, a província registrou a entrada de 447 africanos matriculados. Desses, o maior número foi empregado na construção da estrada Magé-Sapucaia (65), em virtude das obras para a melhoria do escoamento do café. Na estrada da Estrela, foram 4052. Nesse período, o aumento do número de africanos livres em diversos territórios do Brasil imperial é associado na historiografia à pressão inglesa pelo fim do tráfico negreiro. Muitos navios de mercadores de escravos eram apreendidos na costa brasileira, e os africanos a bordo classificados como “livres” foram submetidos a um regime de trabalho compulsório diferenciado, mas não menos cruel, em comparação às outras pessoas escravizadas53.
É importante destacar que o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888. Segundo a plataforma Slave Voyages, mais de 5 milhões de africanos foram trazidos ao país, sendo cerca de 1,5 milhão para o Sudeste, majoritariamente oriundos da África Centro-Ocidental (eixo Congo-Angola)54. Nesse contexto, os quilombos constituíram espaços de reconstrução de vínculos sociais.
Portanto, além dos escravizados, fugitivos e outros indivíduos marginalizados, que reocuparam as fazendas do vale devido à “emigração progressiva da crescente população ali estabelecida desde os tempos coloniais”55, os africanos livres também desempenharam um papel fundamental na reconfiguração socioespacial do Vale da Estrela. Ressaltamos que existe a possibilidade de que os “africanos de nação” — termo utilizado para designá-los nos registros eclesiásticos — tenham sido mais protegidos contra os surtos sazonais de doenças no vale devido ao que McNeill56 descreve como “imunidade diferencial”: muitos africanos trazidos para as Américas possuíam imunidade adquirida em seu continente natal contra doenças como malária e febre amarela, ao contrário dos indivíduos escravizados nascidos e aculturados nos territórios coloniais. Esse fator pode também ajudar a explicar a menor taxa de mortalidade em relação a pessoas negras na Estrela, em comparação a outras áreas, como já descrito.
Outro fator é que essa rede de sociabilidade pode ser rastreada em documentos eclesiásticos que registravam batismos, casamentos e óbitos de negros. Nesse contexto, apresentamos informações parciais do corpus documental da matriz Nossa Senhora da Piedade de Inhomirim, Igreja do núcleo político do Vale da Estrela. Tivemos acesso aos livros de batismos (avulsos), casamentos de escravos e livres, e óbitos de livres. Até o momento, conseguimos sistematizar algumas ocorrências de batismos até óbitos, que envolviam “africanos de nação” ou africanos livres, como no caso do matrimônio de Soares de Souza Coutinho e Delfina, que se casaram no oratório da Fábrica de Pólvora, em 1841, sendo ambos “africanos livres a serviço da nação”57. Mas esses documentos, quando cruzados com outras fontes, podem dar indícios ainda mais importantes sobre a espacialidade. Ao analisar as ocupações históricas do que viria a ser mais tarde o Brasil Central, Souza e Rubin58 apontam que, em relação aos quilombos, há várias evidências no espaço que sugerem existência de comunidades diaspóricas, sendo a toponímia uma das principais fontes informação sobre detecção e análise de influência antrópica em determinadas localidades59. No caso do Vale da Estrela, existem alguns exemplos de como os indícios toponímicos podem auxiliar na identificação de sítios que teriam sido utilizados por quilombolas. A cartografia, por exemplo, pode promover a identificação e o mapeamento de topônimos africanos.
Os indícios toponímicos presentes na região, que vai da Barra da Estrela até o porto homônimo, revelam a forte influência africana na formação da nomenclatura local, especialmente no que se refere aos morros do Calundu (porto e morro), Cubata e “Marea [sic] Conga”60. A área litorânea brasileira, caracterizada pelo “mar de morros”, exibe uma paisagem composta por uma sucessão de colinas e morros ondulados, dispostos de maneira que se assemelham ao movimento das ondas de um mar. Esse padrão geográfico, resultado do processo de erosão, é um elemento típico da Mata Atlântica, presente em diversas regiões do país. A topografia do mar de morros é fundamental para a configuração do relevo e para a dinâmica ambiental desses locais, conforme discutido por Ab’saber61. Historicamente, Lamego62 destaca que as pontas de morro tinham uma importância estratégica para os habitantes do Recôncavo do Rio de Janeiro. Muitos donos de fazenda da região estabeleciam suas residências nesses pontos elevados, que, além de proporcionar uma visão estratégica da Baía da Guanabara, oferecendo segurança em relação aos negócios e ao entorno, também se apresentavam como locais de refúgio durante períodos de chuvas intensas, visto que grande parte da área ao redor dessas elevações costumava ser alagada. É bem provável que os quilombolas tenham utilizado a mesma estretégia: ao se reapropriarem de espaços coloniais, imprimiram suas marcas nos topônimos dos “topos de morro”, fazendo desses lugares pontos de observação.
Dentre os toponímo mapeados, “Calundu” se destaca como um dos mais significativos em termos históricos, pois está fortemente associado à história das comunidades afro-brasileiras: “calundu” é comumente utilizado como um termo guarda-chuva que abrange rituais religiosos das populações negras desde o período colonial63. Já as “cubatas”, como mencionado anteriormente, são habitações construídas com base nos elementos culturais africanos. Quanto ao toponímico “Marea Conga”, chama a atenção o fato de a comunidade quilombola de Maria Conga, ainda existente, estar localizada a cerca de oito quilômetros da bacia do rio Estrela, perto do centro de Magé. Isso sugere que o quilombo pode ter sido deslocado durante as obras de saneamento ou até mesmo forçado a mudar devido a processos de reintegração de posse ou por obras da Petrobrás, que cortaram essas terras de uma ponta a outra para instalar gasodutos64. Outras fontes documentais também oferecem exemplos interessantes de toponímicos que revelam a influência dessas comunidades, como no caso dos já citados arquivos paroquiais da Igreja Matriz Nossa Senhora da Piedade de Inhomirim.
No ano de 1832, foi batizado, na Igreja Matriz, o inocente José, filho de Maria, escrava de dona Florinda, moradora do “Bonga”65. Segundo o dicionário sul-africano, a palavra “bonga”, de origem Quimbundo, seria um verbo transitivo que indica ato de elogiar ou criticar alguém, algo ou alguma ação, por meio de poesia declamada66.
A partir desse topônimo, surge a denominação de um caminho do século xix, conhecido como “Caminho do Bonga”, que conectava Guia de Pacobaíba a Igreja Matriz de Inhomirim. É provável que essa via tenha originado o nome Bongaba, hoje utilizado para designar um bairro no município de Magé, onde se encontram as ruínas da Fazenda do Morro (mapa 3) e da antiga Igreja Matriz. Em 2018, a comunidade Ilê Axé Ogun Alakoro, grupo de culto aos orixás, iniciou o reconhecimento do território junto à Fundação Palmares, motivada por vestígios históricos na região. Com isso, tornou-se a primeira comunidade quilombola oficialmente reconhecida por órgãos estatais no Vale da Estrela até o momento67.
Segundo relatos dos próprios quilombolas, essa comunidade se formou a partir de indivíduos anteriormente escravizados na Fazenda do Morro. Seu antigo proprietário, o alemão Luiz Freitag, assim como outros fazendeiros da região, migrou para Petrópolis devido às condições insalubres do vale68. Esse movimento contribuiu para o estabelecimento de grupos que buscaram reconstruir suas vidas e identidades após o período escravocrata, consolidando-se como um importante marco de resistência e preservação cultural na área. Assim, a presença dessas ruínas e a história da comunidade quilombola reforçam a importância do local como um espaço de memória e reconexão com as raízes afro-brasileiras. Atualmente, parte da comunidade quilombola da região vive de atividades vinculadas ao lixão69 instalado nas proximidades, incluindo a coleta e a comercialização de materiais recicláveis, o que evidencia a precarização das condições de vida e a permanência de desigualdades socioespaciais historicamente construídas.
Portanto, mais uma vez inferimos que os quilombolas do Vale da Estrela foram beneficiados por uma conjuntura de fatores, destacando-se as seguintes: a migração dos fazendeiros e o abandono de seus indivíduos escravizados devido às doenças sazonais na segunda metade do século xix; o deslocamento do eixo econômico do Porto Estrela para Iguassú, Mauá, Guia de Pacobaíba e Magé, favorecendo o escoamento de café e de outros produtos; a baixa fiscalização na região; a relevância do ecossistema local para sustentar modos de vida diaspóricos, especialmente nas áreas de mangue e várzea da bacia do Rio Estrela; e uma rede comercial sólida, que envolvia mariscagem, pesca, corte e venda de lenha e carvão70, além da troca e venda de produtos provenientes das reapropriações de fazendas e ranchos abandonados. Todos esses fatores, quando combinados, apontam para a existência de uma dinâmica favorável à resistência, associada a um outro elemento crucial, que, em tese, se aplicaria aos indivíduos que constituíram esses espaços de refúgio: a inserção de espécies de plantas diaspóricas. Está na hora, portanto, de “amplificar os arquivos” para que o leitor possa conhecer os ecossistemas diaspóricos de dendê do Vale da Estrela.
A disseminação de plantas ao longo do mundo, impulsionada pelas forças da natureza, pelos animais e, principalmente, pelos seres humanos, é um processo histórico de longa duração. O historiador Alfred W. Crosby designou esse fenômeno como “intercâmbio colombiano”. Em sua obra Imperialismo Ecológico, ele enfatizou a importância das pessoas “comuns” no processo de propagação de espécies biológicas pelo planeta. Crosby se referia, principalmente, aos imigrantes europeus que se estabeleciam em territórios novos e que não pertenciam à elite administrativa ou científica, como as autoridades coloniais ou as instituições botânicas e científicas. Esses colonos, ao trazerem consigo sementes, plantas e animais, provocaram grandes transformações nos ecossistemas de lugares como a África do Sul, a Austrália, a Nova Zelândia e resultando nas denominadas “Neo-Europas”71.
Estudos recentes, todavia, sugerem que a contribuição de outros agentes, como os africanos, foram fundamentais na introdução de novas espécies de animais e plantas72. Utilizando uma variedade de fontes, essas abordagens consideram, metodologicamente, não apenas documentos escritos, mas também dados cartográficos, pontos geoespacializados por sistema gis e, em alguns casos, entrevistas de campo. Esse procedimento promove uma “amplificação dos arquivos”, pois o estudo da diáspora africana e das contribuições da população negra para a (re)construção das Américas não pode mais ser confinado a uma única disciplina ou a uma metodologia rígida.
Nesse contexto, nenhuma das fontes “oficiais” — isto é, aquelas redigidas pelos e utilizadas neste estudo — faria sentido, segundo nossos pressupostos, sem a interpretação da paisagem aliada a levantamento cartográfico, pesquisas toponímicas e nominativa em arquivos digitais e estudos de geoprocessamento. Para isso, adotamos uma perspectiva metodológica alinhada ao conceito de método híbrido, que culmina na amplificação dos arquivos. Essa abordagem nos proporcionou uma compreensão mais profunda dos significados e da reprodução dos padrões culturais diaspóricos no Vale da Estrela, sobretudo por conta dos ecossistemas de dendê. Ao analisar a cultura dessa palmeira africana no recôncavo baiano, Watkins descreveu a construção dessa abordagem, que integra análises etnográficas, arquivísticas, quantitativas e geoespaciais, aplicadas em uma variedade de contextos. O trabalho de campo proposto por esse pesquisador percorre diferentes ambientes, como florestas, fazendas, manguezais, com ênfase, mas não exclusividade, na percepção dessas populações, sobre a Mata Atlântica costeira da Bahia73.
Seguindo essa abordagem, nossas hipóteses se fundamentam em documentos escritos e na identificação de plantas exóticas, ruínas de antigas fazendas e portos, além de um aspecto frequentemente negligenciado por historiadores: os relatos informais de agentes locais. Foi a partir dos lugares de memória74 mantidos por pescadores e quilombolas, que ainda resistem às adversas condições de poluição da bacia do Rio Estrela, que conseguimos identificar dois enclaves que podem representar as primeiras manifestações espaciais de quilombos históricos no Recôncavo do Rio de Janeiro. Esses locais, devido a uma série de fatores, como as obras de saneamento e outros elementos debatidos ao longo deste texto, permaneceram ocultos nas matas do vale, longe da atenção dos registros históricos formais. Ao dar atenção a esses relatos e aos vestígios materiais, é possível começar a compreender a dinâmica de resistência e ocupação dessas comunidades. Portanto, foi por meio dessa percepção ampliada que conseguimos ter acesso a esses espaços com suas árvores cheias de histórias.
O mapa a seguir mostra a localização e a distribuição dos ecossistemas diaspóricos de dendê identificados até o momento no Vale da Estrela, funcionando como uma ferramenta fundamental para a compreensão das rotas, territórios e estratégias de ocupação das redes quilombolas na região. Ao visualizar espacialmente esses ecossistemas, é possível identificar padrões de assentamento, áreas de refúgio e conexões entre distintos núcleos de resistência, o que amplia significativamente nossa capacidade de detectar e analisar a presença histórica dos quilombos no Vale da Estrela. Dessa forma, o mapa não apenas ilustra a presença da palmeira, mas revela pistas essenciais sobre a dinâmica territorial, a resiliência e a organização social dessas comunidades, tornando-se peça-chave para o entendimento da formação e permanência das redes quilombolas locais.
Mapa 4. Localização dos ecossistemas diaspóricos de dendê no Vale da Estrela

Fonte: elaboração própria a partir de dados do qgis, software do sig, 2025.
O mapa apresentado acima foi gerado com base em marcação de pontos com gps realizado em estudos de campo em três áreas centrais: a Fazenda do Cangulo, o Paiol da Fábrica de Pólvora da Estrela e a região da Fazenda da Barra e do Porto do Opa (ver mapas 2 e 3). Essas áreas, representadas pelo ecossistema 1 e pelas manchas 2, 3, 4 e 5, são cruciais para a análise da histórica da região, uma vez que abrigam os morros de Calundu, Cubata e Maria Conga. Para complementar a análise espacial, iremos apresentar fotos de drone (figuras 1 e 2) das áreas onde foi realizada a marcação do mapa a seguir, permitindo uma melhor visualização dos ecossistemas e dos vestígios relevantes identificados. No que diz respeito ao ecossistema 7, a observação dos vestígios encontrados sugere que essa área corresponde ao que seria o Quilombo Grande ou Quilombo do Bomba. De acordo com o relato publicado no Jornal do Commercio75, apresentado no início deste texto, esses “aquilombados haviam estabelecido seus ranchos entre Iguassú e o Porto da Estrela”, o que indica uma localização distante da Fazenda São Bento (mapa 3), o que reforça a tese de que esses grupos estavam estabelecidos em áreas mais afastadas da fiscalidade.
Figura 1. Área da Barra da Estrela. Ao fundo, observam-se a Baía da Guanabara e a região de manguezal

Fonte: Vicente Leal Ewerton Fernandez.
Figura 2. Copas dos dendezeiros na Barra da Estrela

Fonte: Vicente Leal Ewerton Fernandez.
Especificamente sobre a planta, o dendê (Elaeis guineensis Jacq.), do qual se extrai o azeite, é amplamente utilizado na culinária brasileira desde tempos imemoriais, especialmente nas regiões litorâneas, Norte e Nordeste. O médico e botânico alagoano Mello Moraes, em um importante compêndio sobre o uso de plantas, descreve diversas aplicações dessa espécie. O óleo amarelo, extraído da polpa do fruto, era utilizado no tratamento de variadas condições, como “erisipela”, “reumatismo” e “panarício”76, além de ser empregado para “amadurecer os abscessos”. Ele também destaca o uso do óleo para a prevenção de infecções, aplicando-o em feridas e lesões cutâneas, tendo em vista suas propriedades cicatrizantes e anti-inflamatórias. Mello Moraes também menciona o uso do dendê em outros remédios caseiros, o que reforça sua importância na medicina popular da época, especialmente entre as comunidades rurais que frequentemente recorriam às plantas para tratar doenças endêmicas. O médico ainda destaca que:
No lugar onde a palma está presa ao estipe (o tronco da planta), há um pelo, semelhante a veludo. Quando retirado e misturado com a cinza das folhas maduras da bananeira, em proporção de uma libra de pelo para uma quarta parte de cinza, e trabalhado à mão, obtém-se uma isca excelente para o fogo, que pode ser acesa com o uso de um fósforo. O fruto da planta, quando maduro, fornece dois óleos diferentes: um amarelo, encontrado entre a casca e o caroço, e outro branco, contido na amêndoa. O processo de extração de ambos os óleos é bastante comum. Com o óleo amarelo, pode-se fabricar um excelente sabão, enquanto o óleo branco é utilizado para produzir sabonetes delicados, ideais para lavar o rosto e as mãos77.
Como se pode perceber, a aplicação da planta vai muito além da culinária. No que diz respeito às habitações dos quilombolas, é provável que o dendê tenha desempenhado um papel fundamental, já que, conforme descrito por Moraes, “O tronco da árvore é utilizado em diversos ofícios, especialmente na construção de casas. Já a palha é empregada na confecção de balaios e paracuns — cesto de palha usado para carregar mercadorias no lombo dos moares —, que são muito apreciados [...]”78. A descrição inicial dos relatos sobre as incursões para destruir os quilombos da Estrela, que mencionam “casas cobertas com telhados de palha de coqueiro e paredes de paus juntos’”, pode sugerir o uso do dendezeiro na construção das cubatas na região do vale. Além disso, os pescadores locais, que ainda habitam a região, relatam que os frutos do dendezeiro são ideais para a produção de iscas para pesca. O fato de a maioria dos habitantes atuais do Vale da Estrela ter perdido o conhecimento sobre os usos culturais dessa planta diaspórica pode estar relacionado aos processos contínuos de desenraizamento de seus descendentes.
Uma das hipóteses é que, em finais do século xix e início do xx, esses grupos foram progressivamente deslocados da área de mangue, onde viviam em moradias como as cubatas, organizados em redes de parentesco e vizinhança, em razão da expansão urbana, de projetos de saneamento, da expansão da indústria petrolífera e da especulação imobiliária na região. Foram reassentados em áreas mais interiores, em loteamentos precários, dando origem às comunidades de Parada Angélica (Fazenda da Tapera), Nova Campinas, Imbariê e Parque Paulista. Esses novos assentamentos caracterizavam-se por infraestrutura limitada, ausência inicial de serviços públicos e ocupação irregular do solo.
Para tentar entender esse processo, ao longo de dois anos, realizamos diversas incursões nas regiões dos mangues localizados nas áreas de Mauá (Guia de Pacobaíba) e Estrela (incluindo a área da fazenda da Barra e o entorno do Rio Saracuruna), além de explorarmos as porções serranas da Estrela e Taquara79. Nessas localidades, além dos dois ecossistemas de dendês e de algumas outras manchas da planta, provavelmente resultantes de dispersão, conseguimos mapear diversos indícios de ocupações humanas. Esses achados, aliados à memória de pescadores e quilombolas sobre processos de ocupação e deslocamento na região, reforçam a hipótese de que o vale foi, de fato, habitado de forma regular ao longo de diferentes períodos históricos.
Assim, os estudos de campo possibilitaram o mapeamento dos ecossistemas diaspóricos de dendê e de outros indícios de presença humana, fortalecendo uma compreensão mais aprofundada da dinâmica territorial do Vale da Estrela quando cruzada com outras fontes. Os achados corroboram a hipótese de que a região habitada de forma contínua ao longo dos séculos, com as ocupações humanas sendo adaptadas às transformações nos ciclos econômicos e aos deslocamentos populacionais. A presença de doenças sazonais, que impactavam diretamente essas comunidades, também desempenhou um papel importante nesse processo. Portanto, é possível observar uma resiliência dessas populações, que, apesar das adversidades naturais e sociais, conseguiram se reorganizar e resistir às diversas fases da intervenção colonialista. Contudo, no contexto da República recém-proclamada em 1889, foram implementadas políticas voltadas à modernização, higienização e reorganização territorial no Recôncavo do Rio de Janeiro. É plausível que a rede de quilombos do Vale da Estrela tenha sido impactada pelas forças modernizadoras do novo regime republicano e pela atuação da Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense, cujas intervenções alteraram significativamente as dinâmicas de ocupação e permanência dessas comunidades80.
Conclusão
A investigação do Vale da Estrela permitiu identificar uma organização territorial quilombola singular, caracterizada por uma estrutura em rede, distinta do modelo centralizado frequentemente associado a quilombos como Palmares. Esses espaços de resistência eram compostos por pequenos povoados dispersos, interligados por caminhos coloniais, trilhas indígenas, rios e portos, formando um sistema que pode ser descrito como uma espécie de “aquilombamento difuso”. Essa configuração espacial reflete uma adaptação estratégica ao ecossistema local, especialmente aos mangues, várzeas e morros, que ofereciam recursos essenciais para a subsistência, segurança e manutenção das comunidades. A presença de espécies africanas, como o dendezeiro (Elaeis guineensis Jacq.), evidencia a profunda reconfiguração ecológica e cultural promovida pelos quilombolas, que reestabeleceram vínculos com a terra por meio de práticas econômicas enraizadas.
Destaca-se também que, além dos fatores ambientais, aspectos históricos, econômicos e sociais influenciaram de forma significativa a consolidação desses territórios. O abandono das fazendas pelos proprietários, o deslocamento do eixo econômico para outras regiões, a baixa fiscalização e a existência de uma rede comercial ativa — envolvendo atividades como mariscagem, pesca, corte de lenha e trocas — criaram condições favoráveis para a resiliência quilombola no Vale da Estrela na segunda metade do século xix. Esses fatores, somados à capacidade de adaptação das comunidades, permitiram a formação de um sistema complexo de sobrevivência, autonomia e uma economia substantivista, baseada em relações de reciprocidade e uso dos recursos naturais81.
Do ponto de vista metodológico, este estudo ressalta a importância de ampliar as perspectivas históricas, incorporando à análise aspectos geográficos, ecológicos e culturais desencadeados pela dispersão de plantas e pela reapropriação de espaços por comunidades diaspóricas. Assim, a investigação desses ecossistemas diaspóricos oferece subsídios não apenas para reflexões sobre territorialidade, identidade e preservação ambiental, mas também para ações concretas, como o reconhecimento territorial, a regularização fundiária e a formulação de políticas públicas voltadas às comunidades contemporâneas do Vale da Estrela. A compreensão dessas dinâmicas históricas enriquece o debate sobre a formação socioespacial do Brasil, destacando o papel ativo das comunidades quilombolas na construção de territórios de resistência e na manutenção de práticas culturais.
As evidências indicam que a configuração física da região influenciou de maneira significativa o abrigo e a organização dessas comunidades, contribuindo para a constituição de uma territorialidade própria sustentada por práticas agrícolas, trocas locais e vínculos simbólicos com o ambiente. A análise dos vestígios históricos e ecológicos reforça a hipótese de que os quilombos se estruturaram em torno da reciprocidade e da mobilidade fluvial. Ao mesmo tempo, a investigação confirma que os processos de modernização — como a construção da ferrovia Barão de Mauá e o consequente assoreamento dos rios — atuaram como agentes de transformação da paisagem e de quase apagamento das memórias quilombolas. Assim, as hipóteses sobre o papel estratégico do Vale da Estrela como núcleo articulador entre diferentes territórios ganham solidez, o que indica a importância de novas abordagens interdisciplinares para compreender a continuidade histórica e ambiental dessas experiências no Recôncavo do Rio de Janeiro.
Sugere-se, portanto, que futuras pesquisas na área de história explorem com maior profundidade a interação entre elementos naturais, geográficos, sociais e culturais que moldaram esses espaços. A investigação de fontes históricas — tanto arquivos físicos quanto digitais —, aliada a dados arqueológicos e informações colhidas em campo, pode revelar novas camadas de significado. Além disso, o diálogo com comunidades quilombolas contemporâneas é fundamental para reconstruir essas memórias e fortalecer a luta por reconhecimento e justiça social. Dessa forma, será possível não apenas resgatar histórias silenciadas, mas também contribuir para a preservação desses territórios e para a valorização do legado das comunidades do recém-(re)descoberto Vale da Estrela.
Bibliografia
Fontes primárias
Arquivos
Documentação primária impressa
Publicações periódicas
Fontes secundárias
❧ Este artigo deriva da pesquisa “Os caminhos no Vale do Rio Estrela: ecologia histórica e a transformação da paisagem no antigo Recôncavo da Guanabara, século xix”, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (processo 174692/2023-4) e vinculada à Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Brasil, no âmbito do Departamento de Geografia.
1 Claudio Magris, citado em Betty Milan, A força da palavra: entrevistas (Rio de Janeiro: Record, 2015), 240.
2 José Maurício Arruti, “Quilombos”, em Raças: novas perspectivas antropológicas, organizado por Osmundo Araújo Pinho e Livio Sansone (Salvador: edufba, 2008), 315-351.
3 Juan Carlos Oliveros Mantilla, “Las cicatrices del paisaje: cimarronaje colectivo y libertad en las tierras comunales de San Basilio de Palenque y La Bonga, norte de Colombia”, Millars: Espai i Història, n° 2 (2022).
4 Maria Cristina Córdova Aguilar, “Maroons no sul da Nova Espanha: rotas de fuga e estratégias de africanos escravizados do bispado de Oaxaca (1591-1769)”, Fronteras de la Historia 27, n° 2 (2022).
5 María Cristina Navarrete Peláez, San Basilio de Palenque: memoria y tradición: Surgimiento y avatares de las gestas cimarronas en el Caribe colombiano (Bogotá: Universidad del Valle, 2008).
6 Manolo Florentino e Márcia Amantino, “Uma morfologia dos quilombos nas Américas, séculos xvi-xix”. História, Ciências, Saúde — Manguinhos 19 (2012), 259-97; Stuart B. Schwartz, “Mocambos, quilombos e Palmares: a resistência escrava no Brasil colonial”, Estudos Econômicos 17 (1987).
7 Flávio dos Santos Gomes, A hidra e os pântanos: mocambos, quilombos e comunidades de fugitivos no Brasil: séculos xvii-xix (São Paulo: Unesp, 2005).
8 Karl Polanyi, A subsistência do homem e ensaios correlatos (Rio de Janeiro: Contraponto, 2012).
9 Lise Fernanda Sedrez, “The bay of all beauties: State and environment”, em Guanabara Bay, Rio de Janeiro, Brazil, 1875-1975 (tese de doutorado, Stanford University, 2005).
10 Case Watkins, Palm oil diaspora: Afro-Brazilian landscapes and economies on Bahia’s dendê coast (Cambridge University Press, 2021).
11 Luiz de Hollanda Cavalcante de Albuquerque, “Quilombo do Bomba”, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 2 de jun. ano 1876, n° 00153, http://memoria.bn.gov.br/docreader/364568_06/13559
12 “Anúncios”, Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, mar. ano 1875, n° 00082A, 3, 2 http://memoria.bn.gov.br/docreader/364568_06/10692
13 O jongo é uma manifestação cultural de origem africana, ligada às comunidades quilombolas e aos antigos trabalhadores das fazendas de café do Sudeste brasileiro.
14 “Anúncios”, Jornal do Commercio, 15 de jul. ano 1862, n° 00094, 1, http://memoria.bn.gov.br/docreader/364568_05/3991
15 Albuquerque, Jornal do Commercio, 2.
16 No Brasil, era uma divisão territorial de caráter simultaneamente administrativo e religioso, comparável à paróquia, que estruturava a organização das práticas religiosas, das atividades civis e da arrecadação fiscal no espaço local.
17 Albuquerque, Jornal do Commercio, 2.
18 Gunter Weimer, “Arquitetura popular afro-brasileira”. Revista em Questão (2020): 291-316.
19 A canga era um tipo de equipamento utilizado na agricultura e no transporte de cargas, especialmente na pecuária.
20 Albuquerque, Jornal do Commercio, 2.
21 Vânia Froes, “Município de Estrela (1846-1892)” (dissertação de mestrado, Universidade Federal Fluminense, 1974); Philippe Moreira, “Os argonautas da Guanabara: liberdade, circularidade e a formação da economia costumeira no Rio de Janeiro escravista, séculos xviii e xix” (tese de doutorado, Universidade Federal Fluminense, 2023).
22 Albuquerque, Jornal do Commercio, 1876, 2.
23 Walter Benjamin, “Sobre o conceito da História” (1942), em O anjo da história, (Lisboa: Assírio & Alvim, 2010).
24 João José Reis e Flávio dos Santos Gomes, Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil (São Paulo: Companhia das Letras, 1996); Carlos Henrique C. Ferreira e Fania Fridmann, Urbanizações brasileiras 1800-1850 (Rio de Janeiro: Letra Capital, 2023).
25 Alberto Ribeiro Lamego, O homem e a Guanabara, 2. ed. (Rio de Janeiro: ibge, 1964).
26 Froes, “Município de Estrela (1846-1892)”.
27 Patrícia Gomes da Silveira, “A metrópole é aqui: redes de abastecimento e o porto do Rio de Janeiro no comércio de cabotagem, 1799-1822” (dissertação de mestrado, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2013).
28 Silveira, “A metrópole é aqui”, 85.
29 Almanak Administrativo Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 20 de maio de 1876, n° 33, 115. http://memoria.bn.gov.br/docreader/313394x/40759
30 Moreira, “Os argonautas da Guanabara”.
31 Uma falua é um tipo de embarcação tradicional, geralmente pequena e de fundo chato, utilizada principalmente em rios, lagos e águas costeiras.
32 “Relatório apresentado ao excellentíssimo Vice-Presidente da Provincia do Rio de Janeiro, o Senhor Conselheiro Antônio Nicolao Tolentino, pelo presidente, o Conselheiro Luiz Antonio Barbosa, sobre o Estado de Administração da Mesa Provincia em 2 de maio de 1856a. (Typografia Imperial e Constitucional de J. Villeneuve e Comp., 1856b)”, Rio de Janeiro-Brasil, 68-73.
33 “Relatório apresentado ao excellentíssimo Vice-Presidente da Provincia do Rio de Janeiro 1856b”, 68-73.
34 Moreira, “Os argonautas da Guanabara”.
35 “Relatório apresentado ao excellentíssimo Vice-Presidente da Provincia do Rio de Janeiro”,1856a, 106.
36 André Villela, “Qual era a população da cidade do Rio de Janeiro entre 1779 e 1870?: novas estimativas”, Acervo 37, n° 2 (2024), 1-30.
37 Entende-se como livres, na documentação, tanto ex-escravos, chamados “alforriados” e/ou “libertos”, quanto a população denominada “branca”.
38 “Relatório apresentado à Assembléa Legislativa da Província do Rio de Janeiro na 2ª Sessão da 11ª Legislatura pelo Vice-Presidente João Manoel Pereira da Silva (Typographia Universal de Laemmert), Rio de Janeiro-Brasil”, 1856b.
39 “Relatório apresentado à Assembléa Legislativa da Província do Rio de Janeiro”,1856b, 8.
40 “Relatório apresentado à Assembléa Legislativa da Província do Rio de Janeiro”, 1856b, 14-15.
41 Simone Fadel, “Meio ambiente, saneamento e engenharia no período do Império a Primeira República: Fábio Hostílio de Moraes Rego e a Comissão Federal de Saneamento da Baixada Fluminense” (tese de doutorado, Universidade de São Paulo, 2006).
42 Fabio Hostílio de Moraes Rego, “A Baixada Fluminense”, Revista de Engenharia 1, n° 6 (1911), 162. Grifo do original.
43 Tânia Pimenta, Keith Barbosa e Kaori Kodama, “A província do Rio de Janeiro em tempos de epidemia”, Revista Dimensões n° 34 (2015): 145-83.
44 Pimenta, Barbosa, Kodama, “A província do Rio de Janeiro em tempos de epidemia”, 145-83.
45 Parte do trabalho de mapeamento dessas fazendas foi produzido pelo pesquisador da Universidade Federal Fluminense Carlito Lopes.
46 Karl Polanyi, A grande transformação: as origens políticas e econômicas de nossa época (Rio de Janeiro: Contraponto, 2021).
47 Polanyi, A subsistência do homem e ensaios correlatos.
48 Sedrez, “The bay of all beauties”.
49 Alinnie Silvestre Moreira, “Liberdade tutelada: os africanos livres e as relações de trabalho na Fábrica de Pólvora da Estrela, Serra da Estrela/RJ” (c. 1831-c. 1870) (dissertação de mestrado, Universidade Estadual de Campinas, 2005).
50 Moreira, “Liberdade tutelada”, 111.
51 “Relatório ...”, 1857.
52 “Relatório ...”, 1856a.
53 Beatriz Mamigonian, Africanos livres: A abolição do tráfico de escravos no Brasil (Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2017).
54 “Slave voyages”, Trans-Atlantic Slave Trade Database, acesso em 3 de março de 2024.
55 Rego, “Baixada Fluminense”, 161-162.
56 John Robert McNeill, Mosquito empires: Ecology and war in the Greater Caribbean, 1620-1914. Cambridge (Nova York: Cambridge University Press, 2010).
57 “Freguesia Nossa Senhora da Piedade de Inhomirim”, Arquivo da Cúria Petropolitana de Petrópolis (acpp), “Livros de Batismos 1; Casamentos 2; 3 Óbitos”, fundo Magé, século xix, 3, Petrópolis-Brasil.
58 Marcos André Torres de Souza e Julio Cezar Rubin, “Entangled Relations: The Expansion of a Colonial Frontier in Central Brazil During the Eighteenth Century”, em Historical Archaeology and Environment, editado por Marcos André Torres de Souza e Diogo Menezes Costa (Cham: Springer International Publishing, 2018), 155-80.
59 Souza e Rubin, “Entangled Relations…”, 155-80.
60 “Planta Geral da Bacia do Rio Estrela”, ano 1912, Arquivo Nacional (A.N.) Rio de Janeiro-Brasil, Fundo: Baixada Fluminense, código de referência: BR RJANRIO 04.0.MAP.106.
61 Aziz N. Ab’saber, Os domínios de natureza no Brasil (São Paulo: Ateliê Editorial, 2003).
62 Lamego, O homem e a Guanabara.
63 Laura de Mello e Souza, “Revisitando o calundu”, em Ensaios sobre a intolerância: inquisição, marranismo e anti- semitismo, editado por Lina Gorenstein e Maria Luiza Tucci Carneiro (São Paulo: Humanitas, 2002), 293-317.
64 Carla de Almeida Lubanco, “Até o rio tá triste: a interpretação da paisagem do rio Suruí a partir de uma reconstrução histórica ambiental participativa” (dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2022).
65 “Arquivos da Freguesia Nossa Senhora da Piedade de Inhomirim”, século xix, 5.
66 “Dictionary Unit for South African English”, acesso em 23 de junho de 2024.
67 “Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (incra)”, Processos administrativos relacionados à regularização fundiária, incluindo comunidades quilombolas; Governo Federal do Brasil, acesso em 12 de agosto de 2023).
68 Moreira, “Os argonautas da Guanabara”.
69 No Brasil, “lixão” é o depósito de resíduos a céu aberto, sem tratamento adequado do solo, controle ambiental ou manejo sanitário, onde o lixo é descartado de forma irregular e frequentemente associado à atuação de catadores em condições precárias.
70 Vicente Leal e Fernandez, Gabriel Paes da Silva Sales, Ana Brasil Machado e Alexandro Solórzano, “Geografia histórica do Caminho do Ouro na Serra da Estrela (RJ), Sudeste do Brasil: barreira, fronteira e permeabilidade”, Historia Ambiental Latinoamericana y Caribeña (Halac)11, n° 1 (2021); Thomaz Amadeo, “Sobre as camadas sutis da paisagem: valores e usos rituais da floresta da Serra da Estrela, Magé-RJ” (Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2022).
71 Alfred W. Crosby, Imperialismo ecológico (São Paulo: Companhia de Bolso, 2011).
72 Case Watkins, “The field and the work: Hybridity as mantra and method”, Geographical Review 110, nº 1-2 (2020), 8-22; Lucas Santa Cruz de Assis Brasil, “De uma erva só se enfara o gado: ecologia histórica de pastagens na Mata Atlântica” (tese de doutorado, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 2023).
73 Watkins, Palm oil diaspora.
74 Maurice Halbwachs, A memória coletiva (São Paulo: Centauro, 2006).
75 Jornal do Commercio, 1876.
76 O panarício é uma infecção aguda nos dedos das mãos ou dos pés, geralmente causada por uma bactéria, como o Staphylococcus aureus.
77 Alexandre Jos de Mello Moraes, Fitografia; ou, Botânica brasileira aplicada à medicina, às artes e à indústria, seguida de um suplemento de matéria médica, inclusive as plantas conhecidas e aplicadas pelos índios em suas enfermidades (Rio de Janeiro: BL Garnier, 1881), 159-160.
78 Moraes, Fitografia; ou, Botânica brasileira ..., 159-60.
79 Agradeço ao Laboratório de Biogeografia e Ecologia Histórica da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro toda a infraestrutura e apoio a esta pesquisa. Agradeço especialmente ao professor Alexandro Solórzano, Vicente Fernandez Leal, Elena Geppetti, Lucas Brasil, Thomaz e Maria Amadeo, João Caldas, bem como os arqueólogos Glaucia Malerba Sene (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e Marcos André Torres de Souza, do Museu Nacional. É importante destacar também a observação do historiador local Alexandre Marques, que, em conversa informal, afirmou que “onde há dendê, há história”.
80 Moreira, “Os argonautas da Guanabara”.
81 Polanyi, A subsistência do homem e ensaios correlatos.
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Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense e atualmente realiza pós-doutorado em Geografia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Brasil. Suas pesquisas concentram-se em história ambiental, história colonial e na história dos africanos no Brasil. Desenvolve o projeto “Os caminhos no Vale do Rio Estrela: ecologia histórica e a transformação da paisagem no antigo Recôncavo da Guanabara, século xix”. Entre suas publicações recentes, destaca-se: “Um contrato dois portos: O Requerimento de Nicolau Lopes da Silva Guimarães para as passagens fluviais de Inhomirim e Couto no Recôncavo do Rio de Janeiro (1739)”. Temporalidades 17, n° 1, (2025): 1–36. prof.philippehistoria@yahoo.com.br, https://orcid.org/0000-0003-3546-158X