Historia Crítica

Hist. Crit. | eISSN 1900-6152 | ISSN 0121-1617

Teoria e práxis revolucionária dos trotskistas brasileiros (São Paulo, 1930-1945)

No. 72 (2019-04-01)
  • Alzira Lobo de Arruda Campos
    Universidade de Santo Amaro, Brasil
  • Marília Gomes Ghizzi Godoy
    Universidade de Santo Amaro, Brasil
  • Rafael Lopes de Souza
    Universidade de Santo Amaro, Brasil

Resumo

Objetivo/contexto: Verifica-se o papel desempenhado pelos primeiros ativistas dissidentes do stalinismo, com o objetivo de auferir o impacto da teoria marxista-leninista e da Revolução Russa sobre a organização do pensamento e da militância de esquerda, na capital paulista. As ideias e a atuação dos trotskistas brasileiros, nas décadas de 1920 e 1930, são reavaliadas a partir da análise de documentos de primeira mão, a fim de entender as interpretações que os dissidentes deram a acontecimentos históricos dos quais foram protagonistas ativos e fervorosos. Espera-se, assim, chegar a uma interpretação mais rigorosa sobre a formação e o desenvolvimento do PCB (Partido Comunista do Brasil). Originalidade: Os estudos sobre o PCB assumem usualmente o viés stalinista, menosprezando os trotskistas, como covardes ou traidores da Revolução Proletária. Esta análise traz à tona a interpretação dos trotskistas sobre os acontecimentos dos quais participaram, com o apoio de uma farta documentação, em grande parte inédita, conservada nos arquivos operários e nos policiais. Metodologia: Esta abordagem utiliza-se de conceitos consagrados pelo método dialético marxista-leninista, estendidos à categoria dos “saberes sujeitados”, entendidos como blocos de conhecimentos históricos que estavam presentes e disfarçados no interior dos conjuntos funcionais e sistemáticos, e que se encontravam desqualificados como saberes não conceituais, hierarquicamente inferiores. Trata-se de uma abordagem que põe em questão as sistematizações formais de autores consagrados, e traz à tona as narrativas de indivíduos silenciados pelo poder. Ao focalizar ações humanas e significados que passam despercebidos nos grandes quadros analíticos, tem-se por objetivo extrair de fatos aparentemente corriqueiros uma dimensão sociocultural relevante, com o apelo ao recurso da narrativa. Conclusões: Fortemente influenciados pelos imigrantes e pelo anarquismo, os movimentos operários brasileiros estruturaram-se em sindicatos e partidos próprios, do qual o mais importante foi o Partido Comunista do Brasil, fundado em 1922. Em pouco tempo, como consequência da luta mortal travada entre Stalin e Trotsky, os camaradas brasileiros divergiram fortemente sobre os rumos da revolução, dando origem a uma disputa árdua para o domínio da direção partidária, considerando que ela se afastava do materialismo histórico e condenava, por esse procedimento, a marcha do proletariado a desvios e à derrota. O grupo mais operante dos opositores, reunido na Liga Comunista Internacionalista, travou uma luta constante contra os dirigentes do partido e a polícia política, transformando-se em vítimas preferenciais da repressão, nos tempos difíceis da ditadura varguista.

Palavras-chave: cotidiano revolucionário, embates doutrinários, práxis revolucionárias, trotskistas brasileiros

Referências

Fontes primárias:

Arquivos:

Centro de Documentação e Memória da Universidade Estadual Paulista (CEDEM-UNESP), São Paulo-Brasil. Fundo Lívio Barreto Xavier (FLBX).

Arquivo Público do Estado de São Paulo (APESP), São Paulo-Brasil. Fundo Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (DEOPS-SP).

Publicações periódicas:

O Homem Livre. São Paulo, 1934.

O Trabalho. São Paulo, 1981.

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Documentação primária impressa:

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