Antípoda. Revista de Antropología y Arqueología

Antipod. Rev. Antropol. Arqueol | eISSN 2011-4273 | ISSN 1900-5407

Refúgio no Brasil: abordagem etnográfica

No. 43 (2021-04-01)
  • Alexandre Branco Pereira
    Universidade Federal de São Carlos, Brasil

Resumo

Nos últimos anos, tem ocorrido um crescimento exponencial da quantidade de refugiados que o Brasil recebe, os quais, em sua maioria, têm se estabelecido em São Paulo, uma das principais cidades do país. Os dados apresentados aqui foram coletados em uma pesquisa etnográfica mais ampla sobre serviços de saúde mental para imigrantes e refugiados, realizada entre 2017 e 2019 nessa cidade. No estudo, cujo objetivo foi descrever suas experiências, são apresentadas duas conclusões principais. A primeira propõe que, para entender melhor o contexto do refúgio, precisamos promover fraturas no sentido monolítico da categoria, abandonar a rigidez que sua definição legal prescreve e, em seu lugar, considerá-la como uma estrutura dinâmica e em constante movimento. A segunda postula que devemos renunciar também a ideia de uma configuração remissiva da categoria de refúgio e prestar especial atenção ao fato de que o confinamento dos refugiados no passado pode ofuscar uma melhor compreensão do que pretendem comunicar. Aqui é onde se encontra a originalidade do que é apresentado: os resultados da pesquisa revelam que o refúgio é uma categoria relacional, produzida não somente pelas burocracias do Estado e das organizações internacionais, mas também por seus sujeitos. Os refugiados no Brasil se negam a ser limitados pelas categorias burocráticas e reformulam seus limites para poder estabelecer novas divisões internas e externas. Estas incluem refúgio branco e refúgio negro, que também abrangem os demais membros excluídos de um modo ou de outro pela categoria burocrática de refúgio.

Palavras-chave: Brasil, racismo, refugiados, São Paulo, temporalidade

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