Da silicolonização do mundo ao tecnoconservadorismo: o renascimento do extremismo político brasileiro no século 21
No. 94 (2025-10-15)Autor(es)
-
Augusto Jobim do AmaralPontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, BrasilORCID iD: https://orcid.org/0000-0003-0874-0583
-
Pablo Ornelas RosaUniversidade Vila Velha, BrasilORCID iD: https://orcid.org/0000-0002-9075-3895
-
Jésus SabariegoUniversidad de Sevilla, EspanhaORCID iD: https://orcid.org/0000-0002-4500-8589
Resumo
Com base na pesquisa realizada por Éric Sadin acerca da chamada “silicolonização do mundo”, este artigo propõe uma análise sobre a influência da racionalidade neoliberal estadunidense que potencializou o discurso empreendedor do Vale do Silício, nascido em 1970, a partir de um viés contracultural, que aderiu paulatinamente uma perspectiva conservadora, tratada por Nancy Fraser como reacionarismo neoliberal. Essa racionalidade foi conquistando um espaço cada vez mais significativo na política internacional, possibilitando que a extrema direita voltasse ao poder em diversos países no século 21, com o auxílio das plataformas digitais. No Brasil, emerge o tecnoconservadorismo construído por Olavo de Carvalho, que, desde o final da década de 1990, passou a articular segmentos difusos da extrema direita, alcançando uma enorme visibilidade e influência na opinião pública, sobretudo por meio da emergência das plataformas digitais e de um mercado editorial destinado a legitimar o seu discurso, por meio da tradução, publicação e difusão de livros que são utilizados como armas na guerra cultural. O texto, ancorado em uma perspectiva genealógica foucaultiana, está organizado em duas seções: na primeira, é apresentada uma genealogia dos discursos produzidos no Vale do Silício e seus distintos momentos históricos, identificando as forças que se encontravam em disputa à época; na segunda, são expostas as bases que sustentam o tecnoconservadorismo brasileiro, não apenas evidenciando sua relação com a extrema direita internacional, mas também apresentando uma cartografia composta por sujeitos, grupos e empresas que se reconhecem como conservadores. A investigação apresentada decorre de esforços destinados a compreender a articulação da extrema direita brasileira com a direita radical e ultrarradical de outros demais países, evidenciando sua relação com as plataformas digitais e seus modelos de negócio.
Referências
Amaral, Augusto Jobim do, José Luís Ferraro e Ricardo Jacobsen Gloeckner. 2024. “Schmitt and Hayek: Origins of Authoritarian Liberalism and its Continuity in Neoliberal Thought”. Soft Power. Revista Euro-americana de Teoría e Historia de la Política y del Derecho 11 (1): 173-191. https://editorial.ucatolica.edu.co/index.php/SoftP/article/view/6855/5855
Arns, Paulo E. (1985) 2014. Brasil nunca mais. Petrópolis: Vozes.
Becker, Gary. 1957. The Economics of Discrimination. Chicago: Chicago University Press.
Becker, Gary. 1975. Human Capital: A Theoretical and Empirical Analysis, with Special Reference to Education. Nova Iorque: Columbia University Press.
Brown, Wendy. 2019. Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no Ocidente. Traduzido por Mario Antunes Marino e Eduardo Altheman C. Santos. São Paulo: Editora Politéia.
Butler, Judith. 2021. Discurso de ódio. Uma política do performativo. Traduzido por Roberta Fabbri Viscardi. São Paulo: Unesp.
Carvalho, Olavo de. (1994) 2014. A nova era e a revolução cultural: Fritjof Capra e Antonio Gramsci. Campinas: Vide Editorial.
Casimiro, Flávio Henrique Calheiros. 2016. “A nova direita no Brasil: Aparelhos de ação político ideológica e a atualização das estratégias de dominação burguesa (1980-2014)”. Tese de doutorado, Universidade Federal do Fluminense, Brasil. https://app.uff.br/riuff/handle/1/13910
Castells, Manuel. 2018. Ruptura. La crisis de la democracia liberal. Rio de Janeiro: Zahar.
Ceolin, Arnon M. 2022. Vale do Silício a contrapelo. Guerra, Estado e capital na formação histórica da utopia californiana. São Paulo: Annablume.
Cesarino, Letícia. 2022. O mundo do avesso: verdade e política na era digital. São Paulo: Ubu.
Chamayou, Grégoire. 2022. A sociedade ingovernável. Uma genealogia do liberalismo autoritário. São Paulo: Ubu.
Couldry, Nick e Ulises Ali Mejias. 2019. The Costs of Connection: How Data Is Colonizing Human Life and Appropriating It for Capitalism. Stanford: Stanford University Press.
Da Empoli, Giuliano. 2019. Os engenheiros do caos: como as fake news, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições. São Paulo: Vestígio.
Dunker, Christian. 2019. “Psicologia das massas digitais e análise do sujeito democrático”. Em Democracia em risco? 22 Ensaios sobre o Brasil hoje, 116-135. São Paulo: Companhia das Letras.
Esposito, Roberto. 2017. Termos da política: comunidade, imunidade, biopolítica. Curitiba: UFPR.
Foucault, Michel. (1976) 2000. Em defesa da sociedade. Traduzido por María Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes.
Foucault, Michel. (1979) 2008. Nascimento da biopolítica. Traduzido por Eduardo Brandão. São Paulo: Martins Fontes.
Fraser, Nancy. 2021. O velho está morrendo e o novo não pode nascer. Traduzido por Gabriel Landi Fazzio. São Paulo: Autonomia Literária.
Han, Byung-Chul. 2022. Infocracia: digitalização e a crise da democracia. Traduzido por Gabriel S. Philipson. Petrópolis: Vozes.
Hayek, Friedrich V. (1944) 2022. O caminho da servidão. Traduzido por Anna Maria Capovilla, José Ítalo Stelle e Liane de Morais Ribeiro. São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil.
Hoppe, Hans-Hermann. 2018. Uma breve história do homem: progresso e declínio. Traduzido por Paulo Polzonoff. São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil.
Huntington, Samuel P. 1957. “Conservatism as an Ideology”. American Political Science Review 51 (2): 454-473. https://ideas.repec.org/a/cup/apsrev/v51y1957i02p454-473_07.html
Kalil, Isabela Oliveira. 2018. “Quem são e no que acreditam os eleitores de Jair Bolsonaro”. Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo / Carta Capital. https://www.cartacapital.com.br/wp-content/uploads/2020/03/Relat%C3%B3rio-para-Site-FESPSP.pdf
Kirk, Russel. (1993) 2014. Política da prudência. Traduzido por Gustavo Santos e Márcia Xavier de Brito. São Paulo: É realizações.
Kirk, Russel. (1953) 2020. A mentalidade conservadora. Traduzido por Márcia Xavier de Brito. São Paulo: É realizações.
Lacerda, Marina B. 2019. O novo conservadorismo brasileiro: de Reagan a Bolsonaro. Porto Alegre: Zouk.
Lama, José Pérez de. 2006. “Um súper-mundo en el Pumarejo”. PH Boletin del Instituto Andaluz del Patrimonio Histórico 58: 106-107. https://doi.org/10.33349/2006.58.2186
Lama, José Pérez de e José Sanchés-Laulhé. 2020. “Consideraciones a favor de un uso más amplio del término tecnopolíticas”. Em Algoritarismos, editado por Jésus Sabariego, Augusto Jobim do Amaral e Eduardo B. C. Salles, 19-43. Valência: Tirant lo Blanch.
Leirner, Piero. 2020. O Brasil no espectro da guerra híbrida: militares, operações psicológicas e política em uma perspectiva etnográfica. São Paulo: Alameda.
Mannheim, Karl. 1953. Essays on Sociology and Social Psychology. Nova Iorque: Routledge.
Mello, Patrícia Campos. 2020. A máquina do ódio: notas de uma repórter sobre fake news e violência digital. São Paulo: Companhia das Letras.
Miskolci, Richard. 2016. “Sociologia digital: notas sobre pesquisa na era da conectividade”. Contemporânea. Revista de Sociologia da UFSCar 6 (2): 275-297. https://doi.editoracubo.com.br/10.4322/2316-1329.014
Mudde, Cas. 2022. A extrema direita hoje. Traduzido por Thiago Dias da Silva. Rio de Janeiro: UERJ.
Poell, Thomas, David Nieborg e José van Dijck. 2020. “Plataformização”. Fronteiras. Estudos Midiáticos 22 (1): 1-9. Traduzido por Rafael Grohmann. https://doi.org/10.4013/fem.2020.221.01
Nemer, David. 2022. Tecnologia do oprimido: desiguldade e o mundano digital nas favelas do Brasil. Vitória: Milfontes.
Rocha, João César de Castro. 2021. Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um Brasil pós-político. Goiânia: Caminhos.
Rosa, Pablo Ornelas. 2019. Fascismo tropical: uma cibercartografia das novíssimas direitas brasileiras. Vitória: Milfontes.
Rosa, Pablo Ornelas, Augusto Jobim do Amaral e David Nemer. 2023. “Datapolítica, governamentalidade algorítmica e a virada digital: uma genealogia da modulação comportamental através das plataformas digitais”. Revista Eletrônica do Curso de Direito da UFSM 18 (3): 1-30. https://doi.org/10.5902/1981369485510
Rosa, Pablo Ornelas, Vitor Amorim de Angelo, Victor Aguiar Almeida e Breno Buxton Vieira. 2024. Tecnoconservadorismo e o Brasil Paralelo. São Paulo: Autonomia Literária.
Rosa, Pablo Ornelas, Aknaton Toczek Souza, Giovane Matheus Camargo e Marcelo Bordin. 2025. “The Birth of the Brazilian Technoconservative Ecosystem and the Convergence of the Attention Economy with the Culture War”. Contribuciones a las Ciencias Sociales 18: 1-21. https://doi.org/10.55905/revconv.18n.2-047
Rossiter, Lyle H. 2016. A mente esquerdista: as causas psicológicas da loucura política. Traduzido por Flavio Quintela. Campinas: Vide Editorial.
Rothbard, Murray N. (1973) 2013. Por uma nova liberdade. Manifesto libertário. Traduzido por Rafael de Sales Azevedo. São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil.
Rothbard, Murray N. (1974) 2019. Anatomia do Estado. Traduzido por Matheus Pacini. Campinas: Vide Editorial.
Rouvroy, Antoinette e Thomas Berns. 2015. “Governamentalidade algorítmica e perspectivas de emancipação: o díspar como condição de individuação pela relação?”. Revista Eco-Pós 18 (2): 35-56. https://revistaecopos.eco.ufrj.br/eco_pos/article/view/2662
Sadin, Éric. 2018. La silicolonización del mundo. Traduzido por Margarita Martínez. Buenos Aires: Caja Negra.
Sabariego, Jésus, Augusto Jobim do Amaral e Eduardo B. C. Salles. 2020. Algoritarismos. Valência: Tirant lo Blanch.
Sabariego, Jésus e Franciso Sierra Caballero. 2022. Tecnopolítica, cultura cívica y democracia. Salamanca: Comunicación Social Ediciones y Publicaciones.
Samenow, Stanton E. (1984) 2020. A mente criminosa. Campinas: Vide Editorial.
Schmitt, Carl. (1932) 2015. O conceito de político. Traduzido por Alexandre Franco de Sá. Lisboa: Edições 70.
Scruton, Roger. (1985) 2014. Pensadores da nova esquerda. Traduzido por Felipe Garrafiel Pimentel. São Paulo: É realizações.
Scruton, Roger. (1980) 2015. O que é conservadorismo. Traduzido por Guilherme Ferreira. São Paulo: É realizações.
Silveira, Sérgio Amadeu. 2017. “Governo dos algoritmos”. Revista de Políticas Públicas 21 (1): 267-282. https://doi.org/10.18764/2178-2865.v21n1p267-281
Silveira, Sérgio Amadeu. 2021. “A hipótese do colonialismo de dados e o neoliberalismo”. Em Colonialismo de dados. Como opera a trincheira algorítmica na guerra neoliberal, editado por João Francisco Cassino, Joyce Souza e Sérgio Amadeu da Silveira, 33-52. São Paulo: Autonomia Literária.
Souza, Rodrigo F. 2021. “National Review, o moderno conservadorismo americano e a luta para “salvar” os EUA do comunismo, do liberalismo e da integração racial (1955-1959)”. Revista de História 138: 1-31. https://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/167096/170150
Sowell, Thomas. (1996) 2023. A busca por justiça cósmica: como a esquerda usa a Justiça Social para assolar a sociedade. Traduzido por Ana Beatriz Rodrigues. São Paulo: Instituto Ludwig Von Mises Brasil.
Srnicek, Nick. 2018. Capitalismo de plataforma. Traduzido por Aldo Giacometti. Buenos Aires: Caja Negra.
Telles, Edson. 2018. “Governamentalidade algorítmica e as subjetivações rarefeitas”. Revista Kriterion 140 (59): 429-448. https://www.scielo.br/j/kr/a/PQTcJnpCGrP7PD5TrXKWzZm/?format=pdf&lang=pt
Toret, Medina. 2015. Tecnopolítica y 15M: la potencia de las multitudes conectadas. Un estudio sobre la gestión y explosión del 15M. Barcelona: Editorial UOC.
Turing, Alan M. 1936. “On Computable Numbers, with an Application to the Entscheidungsproblem”. Proceedings of the London Mathematical Society 42 (1): 230-265. https://www.cs.virginia.edu/~robins/Turing_Paper_1936.pdf
Ustra, Carlos Alberto Brilhante. 2018. A verdade sufocada. Uma história que a esquerda não quer que o Brasil conheça. Brasília: SER.
Van Dijck, José, Thomas Poell e Martijn de Waal. 2018. The Plataform Society: Public Values in a Connective World. Oxford: Oxford University Press.
Voegelin, Eric. 2011. A restauração da ordem, editado por Michael P. Federici. Traduzido por Elpídio Mário Dantas Fonseca. São Paulo: É realizações.
Zuboff, Shoshana. 2020. A era do capitalismo de vigilância. Traduzido por George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca.
Licença
Copyright (c) 2025 Augusto Jobim do Amaral, Pablo Ornelas Rosa, Jésus Sabariego

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International License.