Democracia e liberdade em disputa nas redes: uma análise da tentativa de golpe de Estado no Brasil em 2023
No. 94 (2025-10-15)Autor(es)
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Claudio Luis de Camargo PenteadoUniversidade Federal do ABC, BrasilORCID iD: https://orcid.org/0000-0002-8279-3643
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Paulo Roberto Elias de SouzaUniversidade Federal do ABC, BrasilORCID iD: https://orcid.org/0000-0002-5847-241X
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Patrícia Dias dos SantosUniversidade Federal do ABC, BrasilORCID iD: https://orcid.org/0000-0001-5181-1637
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Luana Hanaê Gabriel HommaInstituto Democracia em Xeque, BrasilORCID iD: https://orcid.org/0000-0003-1533-2406
Resumo
Este artigo tem como objetivo identificar as formações discursivas mobilizadas no debate público on-line, mais especificamente na plataforma X (antigo Twitter), pelos usuários apoiadores e contrários à tentativa de golpe no Brasil conhecida como “atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023”. Nessa ocasião, um grupo de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro invadiu e depredou as sedes dos Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário brasileiros, com o intuito de contestar os resultados da eleição de 2022. Em uma sociedade digitalizada e plataformizada, o debate público on-line reflete as disputas políticas entre os grupos políticos, que buscam, por meio da publicação de conteúdos, influenciar a opinião pública e legitimar suas ações. A fim de compreender essa disputa, o artigo adotou uma estratégia metodológica em três etapas, que articulam técnicas computacionais de coleta de dados em plataformas digitais, análise de linguagem natural para identificar o posicionamento político dos usuários e modelagem de tópicos para formar clusters de termos, possibilitando o reconhecimento das principais formações discursivas presentes no debate on-line. O estudo se apoia nos referenciais teóricos e metodológicos da Teoria do Discurso de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe para analisar o conflito entre grupos políticos antagônicos. Para a análise, a pesquisa focou no estudo da disputa pelo sentido dos termos “democracia” e “liberdade”, entendidos como pontos nodais em torno dos quais os grupos articularam suas práticas discursivas. Os resultados indicam que os grupos favoráveis aos atos reivindicam a legitimidade da revolta popular e da intervenção militar como forma de defesa da democracia e da liberdade como um dever patriótico. Por sua vez, os grupos contrários defendem a democracia como um argumento para caracterizar os manifestantes de “golpistas” e “terroristas”, exigindo a punição dos responsáveis, e concebem a liberdade dentro dos limites das normas constitucionais.
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