Entre a tristeza e a ira: emoções em disputa nas narrativas sobre o crime de uma mulher (São Paulo, Brasil, 1939)
No. 90 (2024-10-04)Autor(es)
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Yonissa Marmitt WadiUniversidade Estadual do Oeste do Paraná, BrasilORCID iD: https://orcid.org/0000-0002-0224-8478
Resumo
Em 1939, Marília, uma mulher de 30 anos, brasileira, casada, dona de casa, residente em São Paulo, matou seu amante, Armando, com machadadas e tiros. Apresentou-se à polícia e foi internada por seu cunhado no Sanatório Pinel, instituição psiquiátrica voltada aos grupos sociais mais abastados da cidade. As fontes de pesquisa foram o documento clínico — que inclui relatório médico, exames laboratoriais, receituário, uma carta escrita por ela — e notícias de jornais paulistas que repercutiram o crime. Com referenciais teórico-metodológicos da história sociocultural das emoções, da história das mulheres e dos gêneros, e da história da loucura e da psiquiatria, proponho, neste artigo, reconhecer que emoções emergiram nos diferentes documentos que nos apresentam a história de Marília. O objetivo principal foi problematizá-las, não no sentido de discutir seus significados específicos, mas sim de entender o que elas produziram. Busquei compreender como o rol delas, enunciado nas diferentes narrativas que contraponho, atuaram por meio de significados compartilhados, no sentido de construir um acontecimento e um sujeito, Marília. As diferentes narrativas sobre a vida e o crime de Marília, inclusive a dela mesma, destacaram como centrais duas emoções: a tristeza e a ira. Isso mostrou que estas operam no interior de um dispositivo emocional que estabelece lugares, possibilidades e limites para as mulheres a partir da percepção de seus corpos e mentes interconectados, dos marcadores sociais da diferença e dos discursos dos saberes expertos, além disso, que as resistências emocionais são constantes.
Referências
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